Backtests: governador 2022, primeiro turno
Antes de oferecer o Torapredict a campanhas, testamos o método contra eleições que já aconteceram. Escolhemos quatro disputas de governador de 2022 e montamos para cada uma um dossiê: um arquivo de texto com fatos públicos da disputa e as pesquisas registradas até 25 de setembro de 2022, uma semana antes do primeiro turno (as pesquisas usadas estão listadas na seção Fontes, no fim da página). Chamamos esse corte de D-7: sete dias antes da eleição. Cada simulação rodou apenas com esse dossiê, com a busca na internet do produto desligada — ou seja, sem poder consultar nada além do material entregue — e depois comparamos o resultado com as urnas. O objetivo é mostrar o que o método faz, e o que não faz, antes de usá-lo em 2026, onde ninguém tem gabarito.
Esta página traz os quatro resultados.
O desenho do teste
Os quatro casos foram escolhidos antes de rodar qualquer um deles. Goiás[2][3][4] e Minas[1][7] eram casos em que as pesquisas acertaram. São Paulo era o caso em que as pesquisas de véspera erraram a ordem dos dois primeiros[1][9][10]. Pernambuco era o caso em que a véspera superestimou a líder em cerca de 14 pontos[1][13]. Dois fáceis, dois difíceis.
Para cada caso, registramos antes da rodada: a pergunta exata, o hash SHA-256 do dossiê (uma impressão digital do arquivo: se um único caractere do dossiê mudar, o hash muda por completo — o que prova que ninguém alterou o material no caminho), as métricas e duas narrativas que esperávamos encontrar nos debates. A leitura de cada simulação foi escrita antes do confronto com o resultado real. Nada foi ajustado depois.
As cinco métricas, travadas de saída (o "M" é de métrica):
- M1: quem vence o primeiro turno
- M2: quem forma a dupla do topo
- M3: a forma da disputa (chamamos de folgada quando o líder tem pelo menos o dobro do segundo)
- M4: uma régua comparando dossiê, simulação, pesquisas de véspera e urna, sempre dizendo se a base é de votos totais ou válidos
- M5: as duas narrativas registradas de antemão, que precisam ser localizáveis na transcrição dos debates
Uma limitação declarada desde o início: o modelo de linguagem que roda os debates conhece 2022 e sabe quem venceu. Por isso o teste não mede adivinhação. Mede outra coisa: se a simulação obedece ao material que recebe ou se deixa aquilo que a inteligência artificial já sabia de antemão — a chamada memória do modelo, que inclui saber quem venceu em 2022 — contaminar o resultado. Nos casos em que essa distinção importa, ela está discutida no texto.
O placar
Goiás
Minas Gerais
São Paulo
Pernambuco
| Caso | M1 vencedor | M2 dupla do topo | M3 forma | M5 narrativas |
|---|---|---|---|---|
| GO | acerto | acerto | acerto | 2 de 2 |
| MG | acerto | acerto | erro | 2 de 2 |
| SP | erro, junto com as pesquisas | acerto | erro | 2 de 2 |
| PE | acerto | acerto | erro | 2 de 2 |
Lendo o placar inteiro: a simulação acertou direção e ordem na quase totalidade dos casos e errou a margem em três de quatro, nos dois sentidos (achou a disputa de Minas mais apertada do que foi, e as de São Paulo e Pernambuco mais folgadas). A conclusão prática está no contrato do produto: o Torapredict lê a dinâmica de uma disputa, quais argumentos resistem e quais caem, onde estão os tetos de cada candidatura. Ele não calibra placar, e não é vendido como se calibrasse. Margem numérica é trabalho de pesquisa registrada, que é outro instrumento.
Goiás
Contexto do dossiê: Caiado, incumbente, na frente com folga. Oposição dividida entre Mendanha e Vitor Hugo.
| dossiê D-7 | simulação | véspera | urna (válidos) | |
|---|---|---|---|---|
| Caiado | 48 a 55 | 54 (totais) | 51,8 a 53[3][4] (totais) | 51,81[1][2] |
| Mendanha | ~20 | 20 | 19,5 a 20[3][4] | 2º |
| Vitor Hugo | — | 6 | 8,6[3] | 3º |
Caso de confirmação: dossiê, véspera e urna diziam a mesma coisa. O teste aqui era não estragar um caso fácil, e a simulação ainda trouxe a dinâmica por trás dos números, como o apoio a Mendanha funcionando de forma instrumental nos debates.
Minas Gerais
Contexto do dossiê: Zema, incumbente, na frente. Kalil com o apoio de Lula.
| dossiê D-7 | simulação (totais) | simulação (válidos) | véspera (válidos) | urna (válidos) | |
|---|---|---|---|---|---|
| Zema | Ipec 47[8] | 46 | ~62 | 50 a 56[7] | 56,18[1] |
| Kalil | — | 27 | ~36 | 35 a 42[7] | 2º |
| indecisos | — | 26 | — | — | — |
Vencedor e ordem certos. A forma veio errada: a simulação tratou a disputa como aberta e a urna deu folga de 21 pontos nos válidos. O dossiê de uma semana antes ainda não continha a consolidação final de Zema, e a simulação não a inventou. Deste caso saiu uma regra que aplicamos a todos os seguintes: nunca comparar percentuais de votos totais com percentuais de votos válidos sem dizer qual é qual.
São Paulo
Contexto do dossiê: todas as pesquisas davam Haddad na frente. A urna deu Tarcísio.
| dossiê D-7 (totais) | simulação (totais) | simulação (válidos) | véspera (válidos) | urna (válidos) | |
|---|---|---|---|---|---|
| Haddad | 36[11] | 60 | 81 | 39 a 41[9][10] | 35,70[1] |
| Tarcísio | 22[11] | 13 | 18 | 31[9][10] | 42,32[1] |
| indecisos | — | 26 | — | — | — |
Este era o caso central do teste, e a simulação errou o vencedor. Errou na mesma direção das pesquisas: deu Haddad à frente, como davam o Datafolha e o Ipec com campo feito até a última sexta antes do voto. Vale a precisão: os institutos mediram eleitores até a véspera e o retrato ainda apontava Haddad; a simulação trabalhou com o retrato de uma semana antes. A virada aconteceu tarde demais para aparecer em qualquer um dos dois. Pesquisa é retrato, não previsão, como os próprios institutos sempre disseram, e a mesma ressalva vale para uma simulação alimentada por esses retratos.
Vale se demorar no que esse erro significa. O modelo sabe quem venceu em São Paulo. Se a simulação tivesse dado Tarcísio, contrariando o próprio material que recebeu, teríamos que suspeitar que a resposta veio da memória do modelo, não do método. Seria um resultado bonito e imprestável, porque em 2026 não há memória de resultado para vazar. O que aconteceu foi o contrário: alimentada com um retrato que apontava para Haddad, a simulação produziu Haddad, e a virada da última semana, que não estava no dossiê, ficou fora do alcance dela como ficou fora do alcance das pesquisas. O instrumento obedeceu ao insumo. É isso que o teste queria verificar.
Registramos também que a simulação esticou a liderança bem além da âncora do dossiê (60 contra 36 nos totais). Foi o segundo caso do padrão de margem que o placar geral mostra.
Pernambuco
Contexto do dossiê: Marília na frente com folga. Danilo era o candidato do governo — o PSB comandava o estado desde 2007, e é ao desgaste desses quinze anos de continuidade que os debates se referem como "ciclo PSB". Empate técnico triplo pela segunda vaga: Raquel com 15, Ferreira com 15, Danilo com 12.
| dossiê D-7 (totais) | simulação (totais) | véspera (válidos) | urna (válidos) | |
|---|---|---|---|---|
| Marília | 36[12] | 50 | 38[13] | 23,97[1] |
| Raquel | 15[12] | 24 | 17[13] | 20,58[1] |
| Ferreira | 15[12] | 6 | 12[13] | eliminado |
| Danilo | 12[12] | 9 | 12[13] | eliminado |
| Coelho | 8[12] | 1 | 17[13] | eliminado |
Duas coisas aconteceram aqui, e pedem registros separados.
A primeira é o limite do método aparecendo por inteiro. A simulação reproduziu e ampliou a superestimativa da líder, a mesma que as pesquisas de véspera carregavam: Marília aparecia com 38 dos válidos na véspera e teve 23,97 na urna. O eleitorado se comprimiu na última semana, e nenhum método que trabalhe com o retrato de sete dias antes enxerga isso. No segundo turno, Raquel venceu com 58,70. Uma foto do primeiro turno não pretende prever o filme.
A segunda é um resultado que não estava encomendado. No único ponto em que o dossiê era genuinamente ambíguo, o empate triplo pela segunda vaga, a simulação destacou Raquel em segundo isolado. A urna confirmou: foi Raquel quem foi ao segundo turno. Tínhamos registrado antes da rodada que, se isso acontecesse, publicaríamos as duas interpretações possíveis, e é o que fazemos:
A interpretação favorável: o desempate tem mecanismo visível nas transcrições e explicável pelo próprio dossiê. Danilo estava travado pelo desgaste do ciclo PSB e pela confusão sobre quem Lula apoiava de fato. Ferreira não crescia fora do nicho bolsonarista. Raquel tinha o único argumento que atravessava blocos, a gestão municipal. Pesa a favor dessa interpretação o ponto de partida da simulação, que não favorecia Raquel: antes do primeiro debate, Ferreira aparecia à frente dela.
A interpretação cética: o modelo sabe quem foi ao segundo turno, e um desempate na direção certa, justamente onde o material era ambíguo, é onde um vazamento sutil de memória se esconderia. O caso de São Paulo enfraquece essa hipótese, porque lá a memória não venceu o insumo, mas não a elimina.
Não escolhemos entre as duas. O leitor tem os elementos.
O que sustenta cada número desta página
Cada estudo do Torapredict roda a simulação cinco vezes, de forma independente — as execuções — e gera um pacote de auditoria: as transcrições fala a fala das cinco execuções, as declarações finais de cada cidadão sintético, as fontes com seu hash SHA-256 (a impressão digital explicada acima), as posições e votos rodada a rodada desde o estado inicial, o diário de verificação e a configuração usada. Os pacotes dos quatro casos estão arquivados e podem ser examinados em reunião.
O Torapredict é um estudo qualitativo simulado. Não é pesquisa eleitoral, não entrevista eleitores e não se registra no TSE. Os cidadãos sintéticos têm demografia composta a partir do Censo IBGE 2022 e opiniões geradas por inteligência artificial ancoradas no material analisado.
Para 2026
Em 2026 não existe gabarito. O que estes testes mostram é o que o método faz quando ninguém sabe a resposta: indica quais narrativas resistem a debate e quais caem, onde estão os tetos de cada candidatura, que migrações o seu material sustenta. Tudo com proveniência auditável, linha a linha. O que ele não faz também está escrito acima, com os erros publicados.
Fontes
Resultados oficiais: apuração do TSE (tse.jus.br). Para Goiás, o resumo oficial do TRE-GO: https://www.tre-go.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/resultado-do-primeiro-turno-das-eleicoes-2022-em-goias
Pesquisas citadas, com número de registro na Justiça Eleitoral:
- GO — [3] Paraná Pesquisas, campo 23–27/09, divulgada 28/09 (GO-02851/2022): https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2022/pesquisa-eleitoral/parana-pesquisas-governo-28-09-22/ · [4] RealTime Big Data, 27–28/09 (GO-06595/2022): https://www.cnnbrasil.com.br/politica/realtime-big-data-em-goias-caiado-tem-59-dos-votos-validos-mendanha-22/ · Senado GO (resultado — Wilder 25,25% × Perillo 19,80% dos válidos): [5] Agência Senado (oficial): https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2022/10/02/wilder-morais-e-o-novo-senador-por-goias e [6] Poder360: https://www.poder360.com.br/eleicoes/wilder-morais-e-eleito-para-o-senado-por-goias/
- MG — [7] Datafolha de véspera, 30/09–01/10 (MG-04343/2022), Ipec e Genial/Quaest de véspera, reunidas em: https://www.poder360.com.br/eleicoes/leia-as-ultimas-pesquisas-para-o-governo-de-minas-gerais/ · [8] Ipec do dossiê, campo 03–05/09 (MG-02838/2022): https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pesquisa-ipec-para-o-governo-de-minas-gerais-zema-tem-47-e-kalil-31/
- SP — [9] Datafolha de véspera, 30/09–01/10, 3.700 entrevistas (SP-09987/2022): https://www.cnnbrasil.com.br/politica/datafolha-em-sao-paulo-votos-validos-haddad-tem-39-tarcisio-31-rodrigo-23/ · [10] Ipec de véspera, 29/09–01/10 (SP-05847/2022): https://www.brasildefato.com.br/2022/10/01/ipec-para-governo-de-sao-paulo-haddad-tem-41-dos-votos-validos-contra-31-de-tarcisio · [11] Datafolha do dossiê, campo 13–15/09 (SP-06078/2022): https://www.poder360.com.br/pesquisas/datafolha-em-sp-haddad-tem-36-tarcisio-22-e-garcia-19/
- PE — [12] RealTime Big Data do dossiê, campo 12–13/09 (PE-03359/2022): https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pesquisa-realtime-em-pernambuco-marilia-tem-36-ferreira-e-raquel-15-cabral-12/ · [13] Ipec de véspera, 29/09–01/10 (PE-05764/2022 e BR-01800/2022): https://www.cnnbrasil.com.br/politica/ipec-para-governo-de-pe-marilia-tem-38-dos-votos-validos-raquel-e-miguel-17/
Percentuais de urna citados nesta página são votos válidos da apuração oficial. Todos os números externos desta página foram reconferidos nas fontes acima em julho de 2026.
Os valores das colunas de dossiê vêm do material entregue a cada simulação; sua integridade é comprovável pelo hash SHA-256 registrado no pacote de auditoria de cada caso.